SaudeAqui.com: O que são os transtornos mentais? Quais são
as possíveis causas na infância?
Hermano Falcone: Primeiro você tem que dar uma definição que
abarque fatores biológicos e ambientais. A interação desses fatores é
justamente o que vai fazer com que se precipite o que a gente denomina
transtorno mental. Ele seria exatamente quando, dentro de uma curva de vida,
você apresenta um problema que começa a complicar sua vida no trabalho, na
escola, nos relacionamentos afetivos, ou seja, alguns sintomas são produzidos
de maneiras mais acentuadas e nesses locais você não consegue funcionar de
maneira adequada. O transtorno mental na infância, especificamente, segue o
mesmo padrão. Na infância se pode perceber uma co-relação entre a genética e o
ambiente que é muito forte, ou seja, a criança está em um processo de
amadurecimento, de maturação, então os fatores ambientais ou, por exemplo, pai,
mãe, tio, avô e também a escola, são de importância fundamental.
SaudeAqui.com: Em que idade é mais freqüente o aparecimento
de transtornos mentais na infância?
Hermano Falcone: Dependendo do transtorno, você vai ter um
perfil diferente na infância. O transtorno de humor bipolar, que há 6 anos
atrás basicamente não existiam pesquisas sobre, já se constata o aparecimento
em crianças de 4 anos de idade. Não é comum. Em média acontecem entre 8 e 10
anos, e mais em meninos. Na
adolescência acontece o inverso, os transtornos passam a acontecer mais em meninas. O TDAH,
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, é mais comum em meninos e
pode surgir a partir dos 3 anos de idade. O diagnóstico fica mais fácil a
partir da idade escolar, mas pode ser bem precoce. Então, deve-se ficar claro,
que existe uma gama de transtornos e o aparecimento deles pode ser bem precoce,
em idade pré-escolar.
SaudeAqui.com: Com exceção do TDAH e do Transtorno Bipolar,
quais são os outros transtornos mais comuns em crianças?
Hermano Falcone: O TOC, Transtorno Obsessivo Compulsivo; a
depressão, que pode estar relacionada ao Transtorno Bipolar ou não; o
Transtorno de Tique, que é muito comum e muito mal diagnosticado. Geralmente
este último gera preconceito, discriminação, porque a criança apresenta alguns
movimentos involuntários do pescoço, da língua, dos olhos. Também temos uma
série de transtornos ligados ao abuso e a violência contra a infância e a
adolescência. Crianças abusadas são o que eu mais vejo hoje, inclusive em
consultórios, trazendo a precipitação do transtorno, como a depressão, a
ansiedade, que também é muito comum na infância. E em menor escala existem
transtornos como o autismo.
SaudeAqui.com: Bebês também podem ser diagnosticados com
esse tipo de problema?
Hermano Falcone: Com certeza. Em grandes centros já se faz a
detecção precoce. O pediatra tem importância fundamental nesse tipo de
diagnóstico. Se deve treinar cada vez mais pediatras no setor de puericultura
para detectar precocemente alguns transtornos. Principalmente o autismo, que
pode ser detectado já na idade de 4 ou 5 meses.
SaudeAqui.com: O que os pais podem observar de diferente no
comportamento da criança para identificar mais rapidamente um possível problema
psiquiátrico?
Hermano Falcone: São algumas coisinhas fundamentais.
Primeiro, a interação dentro de casa com pais, irmãos, avós. Como está essa
interação? Há muita agressividade, muitas brigas, muita rivalidade? Segundo:
como ela está na escola? De repente a criança estava muito bem e o desempenho
cai. Ou a criança não tem nenhuma adaptação escolar, nunca teve um desempenho
bom. E terceiro: a criança chora muito, não gosta de brincar. A relação com os
jogos e brincadeiras é fundamental. No caso da criança que não brinca, deve-se
sempre suspeitar de que existe alguma coisa errada. Então, são esses três
parâmetros.
SaudeAqui.com: Como um transtorno mental pode interferir na
vida social da criança?
Hermano Falcone: Um atraso escolar, que vai trazer conseqüências
complicadas para a criança. Hoje existem muitos estudos sobre bulling. Uma criança com tique, como eu
falei, ou com algum tipo de atraso escolar, pode ser vítima de bulling. Ou se ela tiver qualquer outro
transtorno mental, pode ser vítima de qualquer tipo de violência adicional no
próprio colégio. São crianças que passam a ser visadas, porque o preconceito é
muito grande, então só faz piorar a situação.
SaudeAqui.com: A depressão pode ser diagnosticada a partir
de que idade?
Hermano Falcone: Nós temos a depressão anaclítica de Spitz,
que pode ser diagnosticada num recém-nascido, que é a privação materna. Muitas
mães largam seus filhos ao nascer. Existem casos de crianças de 2 anos com
quadros depressivos na prática clinica. Não existe uma idade padrão, mas a
princípio você pode diagnosticar inclusive no bebê.
SaudeAqui.com: Como diferenciar a depressão de uma tristeza
ou angústia, no caso de crianças?
Hermano Falcone: A tristeza faz parte do desenvolvimento
normal de qualquer pessoa. Por exemplo, se a criança perde um amigo que gosta,
perde um familiar, ela passa por uma fase de tristeza. Perde um brinquedo que
ela gosta, tira uma nota baixa, tudo isso faz parte do processo evolutivo, mas
a depressão não. Ela leva a criança a ter prejuízos mais sérios. A tristeza tem
tempo para começar e tempo para acabar. A depressão não, ela foca a curva de
desenvolvimento e traz prejuízos funcionais na escola e em outros locais.
SaudeAqui.com: Como é feito o tratamento nesses casos? Ele
inclui necessariamente o consumo regular de medicamentos?
Hermano Falcone: Depende da situação. O primeiro aspecto
mais importante é a terapia envolvendo a família. A medicação entra onde
existem sintomas bem prejudiciais, ou seja, ela é um auxiliar, deve ser em tese
momentânea, para momentos em que você não consegue lidar com situações
extremas.
SaudeAqui.com: É importante que outros profissionais da
saúde acompanhem a criança no tratamento? Quais e como?
Hermano Falcone: Não só profissionais de saúde, mas também
os profissionais da escola. A grande mensagem é que o colégio tenha
sensibilidade. Às vezes quando uma criança é rebelde, chama muito a atenção no
colégio, tem um comportamento excêntrico, na verdade está pedindo ajuda. E o
colégio às vezes usa metodologias que só fazem complicar a situação. Os
profissionais da saúde que devem acompanhar, são todos os que estão envolvidos
na questão da infância: psicologia, pediatria, fonoaudiologia, serviço social,
enfermagem, fisioterapia. Toda classe médica, de uma maneira geral, deve ter um
cuidado especial com a criança.
SaudeAqui.com: Todos esses transtornos tem cura?
Hermano Falcone: Se houver envolvimento da família e da
escola, tem cura com certeza. Se não houver, fica mais difícil.
SaudeAqui.com: Caso a criança não seja tratada precocemente,
quais podem ser as consequências ainda nessa fase? E na fase adulta?
Hermano Falcone: As conseqüências podem ser desastrosas.
Exemplificando, se uma criança com Transtorno de Déficit de Atenção e
Hiperatividade não trabalha o problema, pode ser um futuro usuário de drogas.
Relatos existem aos milhares. O que está preocupando mais a psiquiatria da
infância são crianças com 9, 10 anos já usando crack. Não só pela situação em que vivem e seu contato com o crime
organizado, mas crianças de classe média e classe média alta.
SaudeAqui.com: Como a relação da crianças com os pais pode
desencadear um transtorno mental?
Hermano Falcone: Esse modelo de família, que está em
transformação - pai, mãe, um modelo tradicional - basicamente acabou. Ou seja,
eu posso adiantar que daqui a 3 gerações, ele não vai mais existir. Temos que
criar alternativas. O que se observa hoje na prática, no casamento? Geralmente
a figura do pai está sendo muito importante em omissão e negligência. As mães
quando se separam, arcam com o ônus. Você vê pais que usam desde o famoso golpe
de alegar não ter emprego, para não dar nenhuma ajuda. Isso é o que mais se vê,
o pai cafajeste. Infelizmente, poucos desses pais são punidos. Boa parte tem
transtorno de conduta, são anti-sociais e além de não dar nenhuma ajuda
financeira, abandonam os filhos, não dão apoio emocional, nem psicológico e
isso está elevando a precipitação dos transtornos mentais na infância. E pior
ainda: casam, vão para um segundo vínculo e a madrasta passa a rejeitar, ou
seja, nós temos milhões de Nardonis e Jatobás. Aquele caso é um paradigma. Os
dois foram presos, mas nós temos milhões de casos desse tipo e é muito
perigoso. Quando aparece na televisão, chama a atenção, mas isso é o que mais
acontece, esse modelo de Anna Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni, que rejeitam
a criança e chegam até a planejar a morte da criança. Alguns matam fisicamente
e outros matam psicologicamente, que é o que mais tem sido observado.