SaudeAqui.com: Qual a importância da pele para a vida e o desenvolvimento das pessoas?
Larissa Barbosa: A pele, como maior órgão do corpo humano, tem vital importância. Até porque é o primeiro contato do ser humano com o mundo, do bebê com a mãe e a partir da pele é que se permite também a entrada de germes, de microorganismos no nosso corpo e daí há o desenvolvimento de algumas doenças, além de constituir um mecanismos de defesa contra outros tipos de doenças. Então, a pele é como se fosse um limitador entre o ser humano e o ambiente externo.
SaudeAqui.com: Quais os fatores que podem levar aos problemas de pele?
Larissa Barbosa: Existem inúmeros fatores que podem conduzir às dermatoses. Poderíamos separar de uma forma mais geral entre os fatores infecciosos, causados por vírus, bactérias, fungos, alérgenos (poeira), protozoários e outros germes, e fatores ambientais, podendo estar relacionados ao clima (exposição solar), a fatores do tipo estresse emocional (fatores psicológicos) e outros tipos de doenças que ainda não têm uma etiologia definida, quer dizer, fatores específicos, têm uma associação delas, incluindo a carga genética (que cada indivíduo traz a partir do seu nascimento). Esses fatores, associados ou isolados, vão conduzir às dermatoses.
SaudeAqui.com: Que conseqüências podem trazer os fatores psicológicos e por que é importante estudá-los?
Larissa Barbosa: Na dermatologia, há muitos anos, se vê a associação do fator emocional, psicológico as dermatoses de uma maneira geral, quer seja influenciando no sentido de causar uma dermatose ou mesmo piorar o desenvolvimento dela ou estar associado a outras causas. Sabe-se que a pele contém células que estão diretamente relacionadas à estrutura nervosa e consequentemente ao cérebro. De forma que o estresse emocional pode desencadear algumas dermatoses. É importante analisar o paciente como um todo sem separá-lo da sua mente, da sua carga de estresse, do seu dia-a-dia e da sua rotina, porque muitas vezes se pode ter algumas dificuldades ou resistências durante o tratamento de algumas doenças, porque subestima-se o fator emocional associado. Então é de fundamental importância avaliar o paciente como um todo, sabendo que os vários níveis de estresse ou mesmo algum fator associado de ansiedade, que o paciente muitas vezes deva tratar inicialmente, podem ajudar no sentido de uma boa resposta terapêutica e de uma boa condução de uma dermatose.
SaudeAqui.com: Então, o fator psicológico pode interferir no efeito de um medicamento?
Larissa Barbosa: Pode interferir no resultado, principalmente dependendo do tipo de dermatose. Por exemplo, existem dermatoses auto-imunes como o vitiligo, existem doenças também relacionadas diretamente ao fator emocional, como a psoríase, não só causada pelo fator psicológico, mas que atualmente é comprovado que existe uma associação direta. E você observa na prática que tem grupos de pacientes que fazem determinado tipo de tratamento, por exemplo no caso do vitiligo, e esse grupo é bem conduzido, enquanto outro que não trata pode ser melhor conduzido até do que esse, dependendo do fator emocional associado, se ele está se tratando, como está encarando essa doença. Então, muitas vezes nós fazemos um tratamento que chamamos de placebo, que é apensa para entender que o paciente está tratando, mas no fundo o que mais vai ajudar nesse tratamento é a condição emocional dele, no sentido de favorecê-lo. Então, isso pode modificar um tratamento, principalmente dependendo do tipo de dermatose. O que não é o caso de uma dermatose infecciosa, tratada especificamente com antibióticos, anti fungos, mas nós estamos falando de um outro grupo de dermatoses, que está diretamente relacionado a esses fatores.
SaudeAqui.com: Quais são as doenças de pele mais comuns no Nordeste?
Larissa Barbosa: De uma forma geral (porque estatisticamente a gente pode averiguar de uma forma mais concreta) o que se observa no dia-a-dia é mais relacionado ao clima e a condição sócio-econômica da maioria da população. Por causa do clima quente e da exposição solar, existe a tendência ao surgimento do câncer de pele ou lesões pré-malignas, principalmente nas faixas etárias mais avançadas e pacientes com pele clara. Observamos as doenças infecciosas, do tipo micoses, prodermites, verrugas e molusco contagioso, mais comuns em crianças e relacionados à condição socioeconômica (higiene, condições de moradia). Em outro grupo, observa-se os eczemas, reações alérgicas, que também são comuns na prática clínica.
SaudeAqui.com: Quais doenças respondem com mais freqüência a distúrbios psicológicos?
Larissa Barbosa: Doenças como vitiligo, psoríase, o próprio lúpus eritematoso, alguns pênfigos, alopecia areata, são doenças que têm uma base auto-imune. E sabe-se que toda doença auto-imune tem um fundo emocional muito importante associado.
SaudeAqui.com: Existe alguma doença causada por esses distúrbios ou só as que piorem com eles?
Larissa Barbosa: Na verdade, é difícil comprovar, porque existem trabalhos, lemos em livros sobre isso, mas é difícil você atribuir a um fator único e emocional, que é subjetivo e isoladamente a ele, a causa de uma doença. Normalmente se associa, então fala-se que a doença é multi-fatorial, mas no decorrer do acompanhamento, se percebe que esse fator é o principal. A gente nasce com o gene daquele determinada doença e num dado momento da vida, em que sua carga emocional está bem alterada, associado aquele gene, faz eclodir a doença.
SaudeAqui.com: É importante a participação de outros especialistas no tratamento, além do dermatologista?
Larissa Barbosa: É fundamental. Quando se fala de dermatoses associadas a questões emocionais, adentra-se na área da psicodermatologia, onde se atribui um papel importante ao psicólogo, ao psiquiatra, a uma psicoterapia. E mesmo em se tratando de dermatoses de base alérgica, existe o acompanhamento conjunto com o arlegologista ou com o pediatra, com o reumatologista, no caso de doenças auto-imunes comuns. Então, a dermatologia vem como uma especialidade aberta nesse sentido, onde a pele pode ser considerada uma forma de expressão de uma doença interna, e portanto, outros colegas podem nos ajudar em determinadas dermatoses.
SaudeAqui.com: Caso o paciente não queira ser acompanhado por um psicólogo ou psiquiatra junto ao tratamento dermatológico, o que pode ocorrer? Existe alguma conseqüência?
Larissa Barbosa: Depende do caso. Conseqüências graves talvez não, mas se tem mais dificuldade em obter um bom resultado. Na verdade, existem algumas doenças de pele, onde se tem claramente dificuldades em termos de opções terapêuticas, onde à vezes a própria etiologia está indefinida, então você precisa lançar mão de profissionais que o auxiliem neste sentido. Então, se o paciente se recusa é uma dificuldade a mais que se impõe, mas a gente tem que tentar conversar, explicar, dizer que aquela doença não é tão simples de ser tratada quanto uma infecção, é uma doença muitas vezes crônica, demanda tempo e quanto maior a resistência a uma ajuda, no sentido de uma equipe multidisciplinar, então maior a dificuldade de tratar e maior vai ser a cronicidade dessa doença.