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        ENTREVISTA SELECIONADA

SaudeAqui.com: O que é a Esclerose Múltipla?

Bianca Etelvina: Esclerose múltipla é uma doença auto-imune, ou seja, imunológica, progressiva, sem cura. Ela afeta o sistema nervoso central, ou seja, o cérebro e a medula. Para tentar explicar melhor, ela é uma doença que ainda não se sabe a causa, mas acredita-se que a partir de uma determinada infecção por vírus, o nosso próprio sistema imunológico, identifica o nosso sistema nervoso como se fosse aquele vírus e começa a agredir o próprio sistema. Então, para os pacientes que já tem uma predisposição ambiental e genética, se desencadeia a doença esclerose múltipla, que é uma doença desmielinizante. Na lesão do sistema nervoso central existe destruição da mielina, que é como uma membrana que envolve a célula nervosa que facilita a passagem do impulso nervoso, por isso a denominação de doença desmielinizante.

SaudeAqui.com: Quais os tipos de esclerose múltipla?

Bianca Etelvina: As formas clínicas dela são: a recorrente-remitente, seria mais ou menos como se fosse uma forma benigna, onde você tem um sintoma, perda visual e melhora, ou seja, ela recorre e remite, espontaneamente ou com as medicações indicadas pelo médico neurologista. Existe a forma progressiva da doença, que pode vir da primeira vez e nunca mais remitir, então é contínuo. Com uma perda visual, o paciente não recupera mais a visão e a partir daí começa uma dificuldade para caminhar que nunca melhora também.

SaudeAqui.com: Esse é um problema comum?

Bianca Etelvina: Não. É uma doença rara, principalmente no Brasil. Ela acomete principalmente pessoas de pele branca, do sexo feminino, na faixa etária de 20 a 40 anos, principalmente nos países nórdicos, de clima frio. Então, nesse contexto, o Brasil teria um índice menor de afecção dessa doença. Estima-se, no Brasil, em torno de 18 pessoas acometidas por 100 mil habitantes. Porém, esse índice é do Sul e Sudeste. No Norte, por exemplo, vai estar em torno de 7 pacientes por 100 mil habitantes, no Nordeste vai estar em torno de 10 a 15/100 mil habitantes.

SaudeAqui.com: Existe alguma explicação para essa maior incidência em pessoas brancas nórdicas?

Bianca Etelvina: A gente não tem como saber isso ainda, por isso não existe a cura. Imagina-se que há fatores ambientais, alimentação, temperatura muito fria, ocorre o maior número de infecções respiratórias, então um maior números de gripes e pneumonias, ou seja, essas pessoas entrariam mais em contato com vírus e bactérias, o que favoreceria o acometimento ou o surgimento da doença. E os fatores genéticos, que também não se sabe ainda por que essas pessoas têm uma predisposição. A gente só sabe que quanto mais perto da Linha do Equador, menor o índice da doença.

SaudeAqui.com: Existe alguma forma de prevenção?

Bianca Etelvina: Não, nenhuma forma de prevenção especificamente, mas o que é bastante orientado em artigos científicos e livros dedicados aos portadores da doença e familiares, é que todos tenham uma dieta saudável, verduras, legumes, produtos orgânicos, sem hormônios, agrotóxicos, que não sejam clonados. Tanto que fora do Brasil, e também ainda começando no Brasil, no Sul e Sudeste, já existem restaurantes que utilizam apenas produtos orgânicos na cozinha e trazem essa informação inscrita nos anúncios. Também existem mercearias ou lojinhas que oferecem esses produtos. Essa disseminação é atribuída também a essa prevenção, porque se pensa que além do clima, a dieta também tem relação com a doença.

SaudeAqui.com: Como ocorre a manifestação da doença?

Bianca Etelvina: A maioria das vezes ocorre em mulheres jovens, e você pode ter diversos sintomas, como perda visual, visão dupla, formigamentos, perda de força ou paralisia dos movimentos das duas pernas de uma vez, ou de um braço e uma perna, dificuldade para falar, dificuldade para controlar a urina, dificuldade para urinar e para evacuar, falta do controle esfincteriano, sensações de dormência, de choque, dificuldade para caminhar e na coordenação motora, fadiga. Esses seriam os sintomas mais comuns. Logicamente que a pessoa não precisa ter uma crise da doença sentindo tudo isso. Um sintoma ou outro, no máximo dois em conjunto.

SaudeAqui.com: Quando um paciente deve procurar o especialista?

Bianca Etelvina: Bom, diante de qualquer um desses sintomas, paralisia dos membros, falta de controle urinário, perda visual, visão dupla. Se for uma perda visual, ele deve procurar um oftalmologista, que vai identificar se o problema é oftalmológico ou de fundo neurológico. Para as paralisias, deve-se procurar logo um neurologista. Sempre tem que se verificar as idades, porque é muito comum uma paciente de 50 anos apresentar formigamento por má-circulação, diferente de um jovem de 20 anos de idade, que sente uma dormência contínua numa perna ou num braço.

SaudeAqui.com: Depois do encaminhamento para um neurologista, como é feito o diagnóstico?

Bianca Etelvina: Por ser uma doença rara, tem uma demanda de exames caros e você deve obrigatoriamente fazer um diagnóstico diferencial com outras doenças raras que acometem o sexo feminino e também outras doenças que são mais comuns no Brasil, parasitoses, gastrite reumatóide, AVC, então você tem que considerar outras doenças, mas também pensando em esclerose múltipla. E por pensar em esclerose múltipla, nós temos que fazer ressonância magnética, porque o diagnóstico não é dado por tomografia.

SaudeAqui.com: Como é feito o acompanhamento do paciente com esclerose? É importante a participação de especialidades diferentes?

Bianca Etelvina: Se for um paciente que tem a forma benigna, recorrente e remitente, no início a gente acompanha mais de perto, mensalmente, porque tem a introdução da medicação injetável, que tem efeitos colaterais. Depois, esse paciente evoluindo bem com a medicação, ele pode manter um retorno a cada três meses ou até mesmo a cada seis meses, dependendo da resposta dele à medicação. Se for um paciente que não estabiliza a doença com a medicação ou que tenha efeitos colaterais aos medicamentos, a gente vai acompanhar mensalmente.

SaudeAqui.com: Então, qual seria o resultado do tratamento num paciente que tem a forma progressiva da doença?

Bianca Etelvina: Primeiro a gente tem que saber que tipo de progressão tem esse paciente. Se já tiver iniciado de forma progressiva, sem crises, ele não tem indicação das medicações usualmente utilizadas, que se chama imunomodulador, que é oferecido pelo Ministério da Saúde. Então, ou ele vai tomar a medicação que a gente chama de sintomática, para tratar os sintomas, ou vai utilizar imunossupressores. Se foi um paciente que começou com crises, que a gente chama de secundariamente progressiva, porque primeiro tem um quadro que recorre e remete e depois progride. Esse paciente vai iniciar com os imunomoduladores, como os paciente da forma benigna, depois a gente deve verificar se é o caso de associar outras medicações ou cortar o tipo de medicação. Até ir para um transplante de medula, se houver indicação. Então, o objetivo nos pacientes progressivos seria aliviar os sintomas ou até mesmo retardar ou interromper essa progressão.

SaudeAqui.com: É importante a participação de outras especialidades?

Bianca Etelvina: Sim. Esclerose múltipla é uma doença que precisa de multidisciplinaridades, então precisa do acompanhamento de enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, urologistas, oftalmologistas. Então, normalmente nas cidades que existem centros de referência, tem todos esse profissionais dentro do centro ou tem alguns e outros que estão disponibilizados para receber o paciente de esclerose múltipla.

SaudeAqui.com: Caso as pessoas tenham alguma dúvida sobre essa doença, quem elas podem procurar?

Bianca Etelvina: Uma possibilidade seria elas procurarem a associação de portadores de esclerose múltipla da Paraíba*, que estará disponível para tirar qualquer dúvida, atender qualquer necessidade dos pacientes ou das pessoas em geral. Sempre têm palestras para as pessoas que queiram se informar, com profissionais da saúde: enfermeiros, fisioterapeutas, neurologistas, pacientes em geral. Então, nessa reuniões sempre têm temas variados e profissionais variados.

*Associação Paraibana de Esclerose Múltipla (APBEM). Presidente: Sr. Severino Araújo. Telefone: (83) 8806 8659.

 

Bianca Etelvina é pós-graduada em Esclerose Múltipla pela Santa Casa de Misericórdia, SP. Atua como Neurologista em consultório particular e no Hospital Samaritano.

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