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        ENTREVISTA SELECIONADA

SaudeAqui.com: A área de psico-oncologia vem crescendo bastante. A que isso se deve?

Renata Guimarães: Acredito que isto se deve a uma maior interação de toda a equipe multidisciplinar no que diz respeito ao bem estar do paciente oncológico, levando-se em consideração que o estado emocional do paciente tem fator determinante para o enfrentamento e melhoria da doença.

SaudeAqui.com: Quais as reações da criança no tratamento que estimularam o acompanhamento do psicólogo junto com os outros especialistas?

Renata Guimarães: Grau elevado de stress, ansiedade, angústia e sintomas depressivos são as reações mais preocupantes na boa evolução do tratamento.
 
SaudeAqui.com: De que forma as crianças são aconselhadas e acompanhadas?

Renata Guimarães: Geralmente elas não gostam de falar muito sobre a sua doença. Procuram “fugir” da realidade como uma defesa natural. Então procuramos inicialmente incentivá-las a falar sobre os seus sentimentos: se está triste, com medo, ansiosa, angustiada, tudo em uma linguagem bem informal para que se sintam a vontade. Geralmente as crianças maiores verbalizam bem esses sentimentos, com as menores é mais difícil, então usamos muitos recursos lúdicos para isso; a forma mais comum da criança se expressar é através do desenho, que é considerado como a expressão do modo que ela percebe e compreende o mundo. Ali colocam todos seus sentimentos no papel através de cores, tamanhos e formas. Depois costumamos fazer questionamentos pouco invasivos sobre o desenho o que as estimula falar em como estão se sentindo sem que nem percebam isso, e assim adquirem confiança no psicólogo tornando mais fácil todo o processo psicoterapêutico no decorrer do tratamento.

SaudeAqui.com: É importante que a criança não mude bruscamente sua rotina por causa do tratamento, já que está se desenvolvendo. Como o psicólogo deve orientar os pais para que isso aconteça?

Renata Guimarães: Orientamos sempre para que os pais procurem agir normalmente, o que não significa fingir que nada está acontecendo. Talvez para os pais a parte mais difícil seja saber como falar com ela acerca disso. O melhor é sempre dizer a verdade, embora a maioria das crianças não faça perguntas, isso não quer dizer que não queiram ouvir as respostas. A criança vai sentir medo e insegurança perante muitas coisas. O mais importante em todo o processo do tratamento é que os pais estejam sempre ao lado dela dando-lhe toda atenção e carinho, pois isso ajuda a minimizar o sofrimento.

SaudeAqui.com: Que resultados a ajuda do psicólogo pode trazer para o tratamento do câncer?

Renata Guimarães: À medida que estamos ali passando confiança para as crianças e seus pais, isso os estimula a lutar. Se a criança está bem emocionalmente o seu organismo responde positivamente. Se ela está deprimida suas defesas podem cair deixando seu organismo mais vulnerável podendo agravar seu quadro. O nosso trabalho nos dá oportunidade de entrar em contato com inúmeras situações que envolvem dor, sofrimento, angústia, mas também crescimento pessoal e esperança.  Costumo sempre dizer que elas levam muito de nós, mas deixam sempre lições preciosas para o nosso cotidiano pessoal e profissional.

SaudeAqui.com: Qual a importância dos pais e familiares também participarem do tratamento psicológico?

Renata Guimarães: Quando uma criança adoece, na verdade toda a família acaba por adoecer também. É um choque tanto para a criança como para os pais e irmãos. A família sente a sua segurança ameaçada. O dia-a-dia modifica-se radicalmente. Em muitos casos um dos pais tem que deixar de trabalhar para acompanhar seu filho sobrecarregando o outro causando um alto nível de stress. A melhor maneira de os pais ajudarem o filho doente é aprenderem eles próprios a aceitar e também controlar os seus sentimentos encontrando uma forma de se adaptarem à nova situação. O desespero dos pais pode causar mais angústia ao filho, então devem sempre encarar o futuro com confiança mesmo nas fases mais difíceis da doença. Se a criança vê nos seus pais força e esperança elas também vão ter para lutar contra a doença.

SaudeAqui.com: Os médicos de outras especialidades também são orientados pelo psicólogo durante o tratamento?

Renata Guimarães: Em algumas situações sim. O mais comum seria a forma de abordar a criança e seus pais quando necessário transmitir alguma má notícia. Alguns médicos precisam deste suporte para colocar a situação de uma forma que não os assuste tanto, e procuram o serviço de psicologia para juntos encontrarem uma melhor forma de se fazer isso. O ambiente tem que ser o mais tranqüilo possível propiciando uma melhor aceitação e entendimento da situação. Geralmente estamos ao lado do médico neste momento amenizando a notícia e dando o suporte psicológico adequado aos pais e a criança.

SaudeAqui.com: O ambiente em que a criança é tratada também pode influenciar no tratamento e aceitação dela?

Renata Guimarães: Sim, por isso a importância de uma pediatria totalmente humanizada com muitos recursos lúdicos. O brincar dentro do hospital faz a criança sair um pouco da realidade que está vivenciando proporcionando momentos de prazer e descontração.

SaudeAqui.com: Costuma-se pensar que as brinquedotecas em hospitais só servem para que a criança brinque enquanto não é atendida. Qual a real importância desse ambiente para o tratamento?

Renata Guimarães: A brinquedoteca é um espaço lúdico criado para favorecer o brincar, proporcionando estímulos para que a criança brinque livremente.  No hospital ela tem como finalidade tornar o ambiente mais alegre e menos traumatizante, favorecendo melhores condições para a recuperação da criança. Como estão longe de casa e de seus brinquedos, é valioso para a criança saber que no hospital existe um local cheio de estímulos, brinquedos e jogos.  

 

A Dra. Renata Guimarães atua como psicóloga em consultório particular e no Hospital Napoleão Laureano. Apresenta no currículo cursos de formação em "Intervenção em oncologia Pediátrica", "Aspectos psicológicos da criança com câncer" e "Aspectos psicológicos do câncer infantil na família: Pais e Irmãos", pelo Instituto Português de Oncologia em Lisboa.

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