SaudeAqui.com: Quais os fatores de risco do câncer de mama?
Severino Aires: As pessoas costumam estranhar quando falo que o principal fator de risco para o câncer de mama é ser mulher. O que acontece é que a cada 100 casos de câncer de mama, 99 afetam mulheres e apenas um é masculino.
O segundo fator é a idade. Tumores malignos do seio raramente são encontrados antes dos 30 anos e que sua incidência passa a aumentar consideravelmente após os 40 anos, quando sua freqüência cresce em mais de 20 vezes.
Em terceiro lugar, ter um parente que sofreu da doença pode elevar o risco de uma pessoa de duas até dez vezes, sendo mais importantes os casos ocorridos na mãe ou filha que tiveram o diagnóstico antes da menopausa. O mesmo serve para pacientes que já foram tratadas por câncer de mama anteriormente.
SaudeAqui.com: O câncer de mama é a neoplasia mais diagnosticada no Nordeste entre as mulheres. Por que?
Severino Aires: Segundo estimativas do Instituto Nacional do Câncer (INCA) para o ano 2008, a incidência dessa enfermidade é maior nas regiões Sul e Sudeste que nas regiões Norte e Nordeste. Mas, o que acontece no Nordeste é que não se conseguiu reduzir efetivamente a taxa de mortalidade pelo câncer de mama, que é maior do que nas regiões Sul e Sudeste. Isso é mais um efeito da deficiência de programas de saúde pública do que de algum fator epidemiológico relacionado ao câncer ou à nossa população.
SaudeAqui.com: Que recomendações são dadas aos pacientes que têm um risco de desenvolver a doença?
Severino Aires: Mulheres com fatores de risco cardinais devem antecipar os exames periódicos. Além disso, a periodicidade das visitas, que normalmente é de 1 a 2 anos, pode ser reduzida para 6 meses ou menos. Os exames de mamografia podem ser também combinados aos de ultra-sonografia ou mesmo de ressonância magnética, para aumentar a precisão diagnóstica em casos selecionados. A pesquisa laboratorial dos genes BRCA 1 e 2 também pode ser útil nessas situações.
SaudeAqui.com: Como é feita a prevenção do câncer de mama?
Severino Aires: Quando falamos de câncer do seio, é preferível dizer “rastreamento” a “prevenção”. Isso porque é muito difícil realizar efetivamente a prevenção do câncer de mama, pois seus fatores de risco são muitos e variáveis. O que os programas de saúde pública de combate ao câncer de mama têm como meta atual é a detecção precoce por meio de um processo conhecido como rastreamento, que nada mais é do que uma varredura de toda uma população de risco em busca de flagrar tumores o mais cedo possível, antes de se manifestarem clinicamente e de se disseminarem pelo resto do corpo.
SaudeAqui.com: Em que idade costuma aparecer a doença?
Severino Aires: A freqüência passa a aumentar consideravelmente após os 40 anos, que é quando se recomenda iniciar os exames mamográficos. Contudo, é após os 50 anos que encontramos o maior número de casos. O câncer de mama é raro antes dos 30 anos, porém a incidência nessa faixa etária vem aumentando nas últimas décadas.
SaudeAqui.com: Quais são os sintomas?
Severino Aires: O nódulo na mama é a manifestação mais comum. Apesar de serem mais freqüentemente benignos, o aparecimento de caroços deve levar prontamente à procura de serviços médicos para exames complementares. Os nódulos cancerosos costumam ser indolores. Nodulações também podem ser sentidas nas axilas. Finalmente, alguns tumores podem se manifestar no mamilo, ora por uma alteração da pele (uma ferida) ora por uma descarga de líquido sanguinolento.
Veja, é importante frisar que o câncer de mama costuma se manter completamente silencioso por anos. O tumor pode ser detectado pela mamografia até mais de dois anos antes que ele possa vir a ser palpável. A atitude mais correta é facilitar a detecção precoce de tumores tão pequenos que nem sequer são sentidos pelo médico ou pela paciente.
SaudeAqui.com: Muitas pessoas acreditam que apenas fazendo o auto-exame todo mês significa que elas não precisam consultar um médico. Isso está certo?
Severino Aires: O auto-exame (realizado pela própria paciente) é importante, mas é capaz de detectar apenas uma pequena parcela de cânceres, geralmente em estado mais avançado. Assim, ele não deve servir de substituto e sim de complemento. As mãos experientes e treinadas do médico e os exames de imagem, principalmente a mamografia, ainda são as ferramentas mais eficientes na descoberta do câncer e são indispensáveis.
SaudeAqui.com: 80% dos tumores são descobertos com o exame do toque. Nesses casos, a percepção significa que o tumor já tem um tamanho grande? Qual a importância desse exame?
Severino Aires: Esses tumores são chamados palpáveis e podem ser sentidos pela paciente ou pelo médico. A preocupação é que quanto maior o tumor, mais invasivo ele tende a ser e maiores as chances de ele se alastrar pelo corpo, num processo que conhecemos por metástase. A proposta dos programas de rastreamento é que os tumores palpáveis se tornem a minoria dos casos com a adoção das mamografias periódicas. O grande problema é que as mulheres não estão informadas de que devem repetir a mamografia todo ano quando completam 40 anos e continuam diagnosticando seus tumores tardiamente. Devemos martelar sempre a mensagem de que o diagnóstico de câncer de mama deixou há muito tempo de ser uma sentença de morte. Com os devidos cuidados, é uma doença curável!
Independente disso, a palpação ainda é importante, pois há casos em que o tumor não aparece na mamografia, pois se encontra obscurecido pelo tecido mamário denso. Nesses casos, se a paciente e o médico ignorarem a necessidade da palpação das mamas o tumor passará despercebido e o tratamento será retardado.
SaudeAqui.com: Se for detectado um tumor benigno, qual o procedimento médico?
Severino Aires: Muitas vezes é possível determinar a benignidade nódulos somente pelos exames de imagem (MG, ultra-sonografia e RM). Esse é o caso dos cistos simples e da maioria dos nódulos chamados fibroadenomas. Em outras situações, é preciso colher material do tecido com agulhas (punção ou biópsia) para provar sua origem benigna. Constatada a benignidade, a maioria pode ser tranquilamente acompanhada por exames periódicos de mamografia e/ou ultra-sonografia a cada de 6 a 12 meses. A opção pela cirurgia depende de fatores emocionais, estéticos e de riscos associados e a operação costuma ser limitada ao nódulo, preservando o resto da mama.
SaudeAqui.com: Devido aos vários casos da doença, muitos estudos estão sendo feitos e aparelhos desenvolvidos. Quais os progressos feitos com relação ao diagnóstico do câncer de mama?
Severino Aires: O destaque vem para a mamografia digital, que há vários anos trouxe mais versatilidade à manipulação das imagens. A grande dificuldade é que o custo de instalação dessa tecnologia é 10 vezes maior do de um aparelho convencional. Nos EUA, onde os fundos para a saúde são mais fartos, até 2005, apenas 6% dos serviços eram digitalizados. Imaginem no Brasil, onde os avanços na medicina costumam ocorrer com 10 a 15 anos de atraso! Para se ter idéia, até pouco mais de 2 anos, quando eu ainda trabalhava como médico radiologista no o Centro Integrado da Saúde da Mulher (o CAISM) da UNICAMP, todas as mamografias eram lá realizadas em dois bons aparelhos de mamografia convencional. Assim, vejo a mamografia digital ainda como uma realidade distante para a nossa saúde pública. Mas, na maioria dos casos, o método convencional é suficientemente sensível para oferecer um diagnóstico seguro do câncer de mama.
Muitas novidades estão surgindo também no campo de ressonância magnética. Ela é solicitada geralmente quando exames preliminares de mamografia e ultra-sonografia não trouxeram informações suficientes para escolher a melhor conduta. Uma outra novidade é um exame chamado PET-CT, que combina as propriedades de estudo do metabolismo do tumor com a precisão anatômica da tomografia computadorizada. Tem sido pesquisado para verificar a presença de metástases e recidivas após a cirurgia. Um único aparelho destes envolve investimentos na faixa de um milhão de dólares e é privilégio de raros centros de medicina de ponta no Brasil, concentrados na região Sudeste.
O Dr. Severino Aires é especialista em Ressonância Magnética, Radiologia e Diagnóstico por Imagem, atua como Radiologista na clínica Línea, Hospital Unimed JP e Hospital de Emergência e Trauma Sem. Humberto Lucena. É membro da American Institute of Ultrasound in Medicine, dos Estado Unidos.