SaudeAqui.com: Quais as diferenças na estrutura óssea ao longo da vida?
Jânio Dantas: Inicialmente, o osso da criança está em formação, então é mais cartilagem, por isso a criança é mais propensa a sofrer fraturas. Com o passar dos anos, da adolescência até os 25 anos a pessoa precisa ter uma boa qualidade de vida para ter um bom suporte ósseo para no futuro não ter problemas de osteoporose, principalmente as mulheres.
SaudeAqui.com: Como deve ser feita a prevenção?
Jânio Dantas: Desde crianças, deve haver uma boa alimentação rica em cálcio, leite e derivados, para ter uma boa formação óssea. Então, a alimentação é a mais importante forma de prevenção desde o início da vida.
SaudeAqui.com: Quais os principais problemas ortopédicos diretamente ligados ao quadril?
Jânio Dantas: Na criança, de 2 a 6 anos, o mais comum é o que se chama de sinovite do quadril. A criança, às vezes está bem e de repente acorda sem conseguir botar o pé no chão, sem trauma nenhum, e acontece um processo inflamatório na articulação do quadril. A sinovite é transitória, dura em torno de 2 ou 3 dias, mas costuma deixar os pais bem apreensivos, porque a criança vai dormir bem e acorda sem conseguir botar o pé no chão, queixa comum em consultório.
Na medida que a idade vai aumentando, em torno de 6 até os 11 anos, tem uma patologia mais grave que é a doença de Legg Calve Perthes, uma necrose, uma destruição da cabeça do fêmur. É uma doença mais grave, que também começa com uma dor no quadril, só que, diferente da sinovite transitória, essa dura em torno de 1 ano e começa a provocar limitações nos movimentos do quadril. Não existe explicação de por que essa doença aparece, só algumas teorias, mas a causa ainda não foi descoberta.
Nas pessoas mais velhas, a maior queixa de dor no quadril é a artrose, que é o desgaste da cartilagem com o tempo, que também é comum em pacientes obesos, que acabam sobrecarregando a articulação do quadril e nas pessoas que têm histórico de artrose na família, além das fraturas.
SaudeAqui.com: Em que faixa etária ocorre maior incidência de fraturas no quadril?
Jânio Dantas: As fraturas do quadril são causa de alta energia, por exemplo, uma queda banal. É mais comum em pacientes mais idosos, em torno de 70 até 90 anos, devido à osteoporose. Mas hoje, com o índice de acidentes de trânsito, qualquer pessoa está sujeita à fratura do quadril.
SaudeAqui.com: Problemas no quadril podem estar ligados a outras doenças?
Jânio Dantas: Sim. Por exemplo, um paciente que tem que usar um corticóide por muito tempo acaba podendo levar a uma necrose da cabeça do fêmur, que seria a destruição da cabeça do fêmur, e isso pode causar muita dor. Os pacientes alcoólatras também. Quem toma 400ml de cerveja por semana, aumenta em 10 vezes a chance de ter necrose da cabeça do fêmur e quem toma 1000ml, menos de 2 cervejas, por semana, aumenta em quase 20 vezes as chances. Então, mesmo só bebendo socialmente, se o paciente tiver uma tendência a ter a necrose, aumenta muito o risco.
SaudeAqui.com: Em que casos é indicada a cirurgia de prótese?
Jânio Dantas: Um paciente que teve uma doença de Perthes quando era criança e ficou com uma seqüela, é candidato a substituir a articulação do quadril por uma prótese futuramente. Isso depende da idade. Outro caso que pode evoluir para uma cirurgia é um paciente com seqüela de osteomielite¹ do quadril ou que acabou destruindo essa articulação completamente. Um paciente com osteoartrose ou uma artrite reumatóide avançada, que destrói a articulação em um paciente jovem, a prótese no quadril, nesses casos, pode ser feita. Mas normalmente a prótese é usada em pacientes de idade mais avançada. Outra ocasião que se pode usar é quando há fratura de cabeça de fêmur, onde acontece a substituição da cabeça por uma de metal e uma haste. Em caso de fratura nessa região, a chance de necrose é muito grande, por isso em pacientes mais idosos é indicada logo a cirurgia.
A prótese total substitui tanto a cabeça do fêmur, como o acetábulo². E na prótese parcial, só a cabeça do fêmur é substituída.
SaudeAqui.com: Luxações são muito comuns em atletas. Que cuidados, em especial, eles devem tomar?
Jânio Dantas: Na realidade, o termo luxação, que é usualmente utilizado, não é o correto. Luxação é quando se tem uma articulação fora do local. Na maioria desses casos de atletas, o que ocorre é a contusão, o famoso machucado. A luxação é muito grave e pode levar a uma necrose. Os cuidados que os atletas devem tomar, em qualquer esporte, é proteção com equipamentos e a boa alimentação.
SaudeAqui.com: Que procedimentos devem ser tomados antes do atendimento especializado, em casos de fratura no quadril?
Jânio Dantas: Nesse caso é difícil fazer um atendimento inicial por um leigo, principalmente porque quem tem esse tipo de fratura sente muita dor, não consegue andar. Então, o mais adequado seria não mexer no paciente e chamar um atendimento especializado. Não tem como imobilizar essa articulação. No caso de fratura no paciente idoso, o procedimento é cirúrgico. Quanto mais tempo se demora para operar um idoso, pior vai ficando o quadro cínico dele. Então, o atendimento tem que ser especializado e rápido.
SaudeAqui.com: A maior fragilidade nos ossos dos idosos faz os jovens pensarem que estão mais protegidos e relaxarem nos cuidados. O que é recomendado a esses jovens?
Jânio Dantas: O que a gente têm percebido no jovem, principalmente as mulheres, é que são um pouco sedentários. A fase de preparar a massa óssea é até os 25, 30 anos. Depois disso, a tendência é dar uma estabilizada e depois perder essa massa óssea. Então, o que o jovem puder fazer de atividade física para fortalecer a massa óssea, deve ser feito nessa faixa etária e o que se têm percebido é que não acontece muito isso. Nos colégios, hoje, não se exige Educação Física, o uso do computador deixa o jovem mais sedentário.
SaudeAqui.com: Às vezes, problemas no quadril são confundidos com problemas nos joelhos. Por que isso acontece?
Jânio Dantas: Isso é comum demais. Existe um nervo que passa na região do quadril e quando tem uma patologia a esse nível, acaba acontecendo um processo inflamatório desse nervo e a dor irradia até o joelho, então o paciente se queixa mais de dores no joelho.
¹Osteomielite: inflamação óssea.
²Acetábulo: cavidade da pélvis onde se articula o fêmur.
O Dr. Jânio Dantas Gualberto é especialista em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital da Base do Distrito Federal, membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia – SBOT.
Atua como ortopedista e traumatologista na Clinor, Hospital Unimed e Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena, em João Pessoa; e professor de Ortopedia da Famene.